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Não Saiba a Tua Mão Esquerda o Que Faz a Tua Direita




Capítulo 13


  • FAZER O BEM SEM OSTENTAÇÃO
    1. Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens,
    para serdes vistos por eles. Aliás não tereis galardão junto de vosso Pai,
    que está nos céus. - Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta
    diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas para
    serem glorificados pelos homens. - Em verdade vos digo que já
    receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a
    tua mão esquerda o que faz a tua direita, para que a tua esmola seja
    dada ocultamente, e teu Pai, que vê em segredo, te recompensará.
    (Mateus, capítulo 6, versículos 1 a 4.)
    2. E descendo Jesus do monte, seguiu-o uma grande multidão.
    E eis que veio um leproso, e o adorou dizendo: Senhor, se quiseres,
    podes tornar-me limpo. E Jesus, estendendo a mão, tocou-o, dizendo:
    Quero; sê limpo. - E logo ficou purificado da lepra. - Disse-lhe então
    Jesus: Olha, não digas a ninguém, mas vai, mostra-te ao sacerdote, e
    apresenta a oferta que Moisés determinou, para lhes servir de
    testemunho. (Mateus, capítulo 8, versículos 1 a 4.)
    3. Fazer o bem sem ostentação é um grande mérito. Esconder
    a mão que dá é ainda mais meritório. Esta conduta é o sinal de
    uma grande superioridade moral. É que para ver as coisas de um
    modo mais alto que o comum, é necessário separar-se mentalmente
    da vida presente e ajustar-se com a vida futura. Por outras palavras,
    é necessário colocar-se acima da humanidade, para renunciar à
    satisfação que procura o testemunho dos homens, e esperar a
    aprovação de Deus.
    Aquele que prefere a aprovação dos homens ao bem que faz,
    mais do que a aprovação de Deus, demonstra que tem mais fé nos
    homens do que em Deus. Demonstra, também, que a vida presente
    é para ele mais do que a vida futura ou que até mesmo não crê na
    vida futura. Se, no entanto, ele diz que crê na vida futura, age como
    se não acreditasse no que ele mesmo diz.
    Quantos há que só fazem um benefício com a esperança de
    que o beneficiado vá anunciar por toda parte o benefício recebido!
    Quantos há que, à vista de todos, dão uma grande soma, mas se
    estiverem a sós não dariam uma só moeda! Foi para eles que Jesus
    disse: "Aqueles que fazem o bem com ostentação já receberam a sua
    recompensa". Com efeito, aqueles que buscam a sua glorificação na
    Terra, pelo bem que façam, já se pagaram a si mesmos. Deus não
    lhes deve mais nada. Só lhes resta receber as desilusões que nascem
    do orgulho.
    Que a mão esquerda não saiba o que faz a direita é uma imagem
    simbólica que caracteriza admiravelmente a beneficência modesta.
    Porém, se há modéstia verdadeira, há também modéstia falsa, uma
    imitação barata de modéstia. Pois há pessoas que escondem a mão
    que dá o auxílio, mas têm o cuidado de deixar aparecer um
    pedacinho, olhando em volta para certificar-se se alguém não as viu
    ocultá-la. Essa é uma comédia indigna dos ensinamentos de Cristo.
    Se os benfeitores orgulhosos são desapreciados entre os
    homens, o que não lhes acontecerá perante Deus? Também esses já
    receberam a sua recompensa na Terra. Foram vistos e estão satisfeitos
    de terem sido vistos e isso lhes basta.
    E qual será a recompensa daquele que faz pesar os seus
    benefícios sobre o beneficiado, que lhe exige de algum modo os
    testemunhos de reconhecimento, que lhe faz sentir a sua posição de
    benfeitor, destacando o preço dos sacrifícios que suportou pelo
    beneficiado? Oh! Para esse, nem mesmo existe a recompensa terrena,
    porque está desprovido da doce satisfação de ouvir bendizer o seu
    nome, e essa é a primeira desilusão de seu orgulho. As lágrimas que
    esse orgulhoso secou por vaidade, ao invés de subirem ao céu,
    recaíram sobre o coração do próprio aflito e abriram-lhe uma ferida
    maior. O bem que o vaidoso fez é sem proveito para ele mesmo,
    pois que ele o deplora e todo benefício deplorado é moeda falsa,
    sem nenhum valor.
    A beneficência sem ostentação tem duplo merecimento. Além
    de ser caridade material é também caridade moral. Ela não machuca
    o sentimento do beneficiado. Ela leva o beneficiado a aceitá-la, sem
    que o seu amor-próprio sofra, resguardando a sua dignidade pessoal.
    É que há alguém que aceita prestar um serviço, mas que rejeita
    receber uma esmola. Porém converter um serviço em esmola, pela
    maneira de exigi-lo, é humilhar aquele que o recebe. E há sempre
    orgulho e maldade em humilhar alguém.
    A verdadeira caridade é delicada e engenhosa para dissimular
    o benefício, a fim de evitar até as menores aparências do benefício
    capazes de melindrar, porque toda mágoa moral aumenta o
    sofrimento que nasce da necessidade.
    A verdadeira caridade sabe encontrar palavras brandas e amigos
    que colocam o beneficiado à vontade diante do benfeitor, enquanto
    que a caridade orgulhosa esmaga o carente de amparo. O sublime
    da verdadeira generosidade está no benfeitor saber inverter os papéis,
    encontrando um meio de parecer que ele mesmo é o beneficiado
    diante daquele que lhe presta um serviço.
    Eis, aqui, o que querem dizer estas palavras de Jesus: "Que a
    mão esquerda não saiba o que faz a mão direita".


  • INFORTÚNIOS OCULTOS
    4. Nas grandes calamidades públicas, a caridade se agita e
    você verá generosos impulsos para socorrer os desastres. Mas, ao
    lado desses desastres gerais, há milhares de acidentes pessoais que
    passam desapercebidos, como aqueles de gente que está numa cama
    pobre sem se queixar. Estes são os infortúnios silenciosos e ocultos
    que a verdadeira generosidade sabe descobrir, sem esperar que aqueles
    que sofrem venham a suplicar por amparo.
    Quem é esta senhora de ar distinto, de roupas simples, embora
    bem cuidadas, acompanhada de uma jovem filha vestida também
    modestamente? Ela entra num casebre de dolorosa aparência, onde
    sem dúvida é conhecida, pois a sua chegada é saudada com respeito.
    Aonde vai ela?
    Vai ao encontro de uma mãe de família, que está rodeada de
    filhos pequenos. A sua presença faz a alegria brilhar naquelas faces
    descoradas. É que ela vem ali acalmar todas as dores. Ela traz o que
    lhes é necessário, recoberto de doces e consoladoras palavras de
    ânimo. Assim, faz que aceitem o benefício sem envergonharem-se,
    pois que esses infortunados não são profissionais de mendicância.
    O pai está num hospital e, enquanto lá permanece, a mãe não tem
    o suficiente para atender as necessidades da família.
    Graças a essa senhora, as pobres crianças não mais sentirão
    nem frio e nem fome. Irão para a escola agasalhadas e no seio da
    mãe não faltará o leite para os menorzinhos. Se, entre essas sofridas
    criaturas, alguma adoece, ela não se sentirá mal em prestar-lhe o
    amparo material.
    Daqui, essa senhora seguirá para o hospital, a fim de levar ao
    pai algum reconforto e tranqüilizá-lo sobre a situação da família.
    Numa esquina da rua, um veículo a espera, verdadeiro
    armazém de tudo o que vai levar aos seus protegidos, que ela visita
    sempre. Ela não lhes pergunta nem a religião, nem quais são as suas
    opiniões, pois que para ela todos os homens são seus irmãos e filhos
    de Deus.
    Quando as visitas terminam, ela diz a si mesma: "Eu comecei
    bem o meu dia".
    Qual é o seu nome?
    Onde mora?
    Ninguém o sabe!
    Para os infelizes, o seu nome não é conhecido, mas ela é, para
    todos eles, o anjo da consolação e, à noite, um coro de bênçãos se
    eleva para ela ao Pai Celestial. Católicos, judeus, evangélicos, todos
    a bendizem.
    Por que esta roupa tão simples? É para não ferir a miséria
    com o luxo. Por que se faz acompanhar pela sua jovem filha? É
    para esta aprender como se pratica a beneficência.
    Sua filha também quer fazer a caridade, mas a sua mãe lhe
    diz: "Que pode você doar, minha filha, se nada você tem de seu? Se
    eu lhe der qualquer coisa para passá-la a outros, qual será o seu
    mérito? Na realidade, aí serei eu que farei a caridade e que
    merecimento você teria nisso? Isso não é justo! Quando formos
    visitar os doentes, você me ajudará a tratá-los. Ora, dispensar
    cuidados é dar alguma coisa. Isso não lhe parece suficiente? Se não
    lhe parece suficiente, então nada mais simples do que você aprender
    a fazer obras úteis, costurando roupinhas para as criancinhas, porque
    desse modo você doará alguma coisa que vem de você mesma".
    Assim é que esta mãe, verdadeiramente cristã, vai desenvolvendo
    a sua filha para a prática das virtudes ensinadas pelo Cristo.
    Ela é Espírita?
    Que importa isso!
    No meio em que vive, é a mulher comum ao círculo de suas
    relações, porque a sua posição social o exige. Mas ignoram o que
    ela faz, porque ela não deseja outra aprovação às suas ações, que não
    seja a aprovação de Deus e a de sua própria consciência.
    Porém, certo dia, uma ocorrência imprevista leva até à sua
    casa uma de suas protegidas, que andava a vender trabalhos manuais.
    Esta vendedora, ao vê-la, nela reconheceu a sua benfeitora. Mas ela
    lhe disse: "Silêncio! Não digas a ninguém!". - Assim falava Jesus.


  • O ÓBOLO DA VIÚVA
    5. E olhando, Jesus viu os ricos lançarem as suas ofertas na arca
    do tesouro. E viu também uma pobre viúva lançar ali duas pequenas
    moedas e disse: Em verdade vos digo que lançou mais do que todos,
    esta pobre viúva. Porque todos aqueles deitaram para as ofertas de
    Deus do que lhes sobeja, mas esta, da sua pobreza, deitou todo o
    sustento que tinha. (Lucas, capítulo 21, versículos 1 a 4.)
    6. Muita gente se queixa de não poder fazer todo o bem que
    teria vontade, por falta de recursos suficientes. Dizem que desejariam
    ter uma grande fortuna para dela fazer uso no campo do bem.
    Essa intenção, não há dúvida, é louvável. Pode até ser sincera
    da parte de alguns. Mas seria sincero da parte de todos um tão
    completo desinteresse pessoal? Não haveria quem, em desejando
    fazer o bem para os outros, se sentiria melhor se começasse a fazê-lo
    a si próprio, dotando-se de mais alguns prazeres, de um pouco mais
    do supérfluo que lhe falta, pronto a doar o resto aos pobres?
    Esta segunda intenção, que alguns escondem de si mesmos,
    mas que eles encontrariam no fundo de seus corações se os
    examinassem atentamente, anula o mérito da intenção. Com a
    verdadeira caridade, o homem pensa nos outros, antes de pensar
    em si próprio.
    O sublime da caridade, nesse caso, seria cada um procurar no
    seu próprio trabalho, pelo emprego de suas forças, de sua inteligência
    e de seus talentos, os recursos de que necessita para realizar os seus
    planos generosos. Haveria nisso o sacrifício mais agradável ao Senhor.
    Infelizmente, a maioria das pessoas vive a sonhar com os meios
    mais fáceis de enriquecer de repente e sem sacrifícios. Correm atrás
    de quimeras, como a descoberta de um tesouro, uma oportunidade
    qualquer favorável, o recebimento de heranças inesperadas.
    E que dizer daqueles que esperam encontrar, para os secundar
    nessas buscas do mais fácil, auxiliares entre os Espíritos? Seguramente
    eles nem conhecem nem compreendem a finalidade sagrada do
    Espiritismo e, menos ainda a missão dos Espíritos a quem Deus
    permite que se comuniquem com os homens. Daí virem a sofrer
    com as decepções. (O Livro dos Médiuns, questões 294 e 295.)
    Aqueles, cuja intenção está despojada de toda idéia de interesse
    pessoal, devem consolar-se de sua impotência de fazer todo o bem
    que desejariam, lembrando-se que o óbolo do pobre, que faz a
    doação se privando de alguma coisa, tem maior peso na Balança
    Divina, do que a doação do rico que não lhe impõe privação alguma.
    A satisfação seria grande, sem dúvida, de socorrer-se largamente
    a indigência. Mas se isso não nos é possível, devemos submeter-nos
    e nos limitarmos a fazer o que seja possível. Aliás, não é somente
    com o dinheiro que se podem enxugar lágrimas.
    E devemos ficar inativos porque não temos dinheiro
    suficiente?
    Ora, todo aquele que deseja sinceramente ser útil a seus irmãos
    encontrará mil formas diferentes de sê-lo. Que as procure e as
    encontrará. Se não for de uma maneira, será de outra, porque não
    há pessoa alguma, no livre gozo de suas faculdades, que não possa
    prestar um serviço qualquer, dar uma consolação, abrandar um
    sofrimento físico ou moral, tomar uma providência útil. Na falta
    de dinheiro, não dispõe cada um do seu trabalho, do seu tempo,
    do seu repouso para dar aos outros uma parte?
    Também está aí a doação do pobre, o óbolo da viúva.


  • CONVIDAR POBRES E ESTROPIADOS
    7. E dizia também ao que o tinha convidado: Quando deres um
    jantar ou uma ceia, não chames os teus amigos, nem os teus irmãos,
    nem os teus parentes, nem vizinhos ricos, para que não suceda que
    também eles te tornem a convidar, e te seja isso recompensado. Mas,
    quando fizeres convite, chama os pobres, aleijados, mancos e cegos, e
    serás bem-aventurado, porque eles não têm com que te recompensar,
    mas recompensado te será na ressurreição dos justos. E, ouvindo isto, um
    dos que estavam com Ele à mesa disse-lhe: Bem-aventurado o que comer
    pão no reino de Deus. (Lucas, capítulo 14, versículos 12 a 15.)
    8. "Quando fizerdes um banquete - disse Jesus - não
    convideis os vossos amigos, mas os pobres e estropiados." Estas
    palavras, absurdas se tomadas ao pé da letra, são sublimes, se lhes
    buscarmos a sua significação espiritual. Jesus não poderia querer
    dizer, por elas, que em vez dos seus amigos, você deveria reunir à
    sua mesa os mendigos da rua. A linguagem d'Ele era, quase sempre,
    figurada. Para os homens incapazes de compreender os tons delicados
    do pensamento, Ele falava com imagens fortes produzindo os efeitos
    de um quadro berrante.
    O fundo do pensamento de Jesus se revela nas palavras: "Vós
    sereis felizes, porque eles não terão meios de vos retribuir o que lhes
    oferecerdes". Isso quer dizer que não se deve fazer o bem, visando a
    uma retribuição, mas tão-somente pelo prazer de fazê-lo.
    Para dar uma comparação clara, Jesus disse: "Convidai a vossos
    banquetes os pobres, pois sabeis que eles não poderão vos retribuir".
    E, por banquete, é necessário entender, não a refeição propriamente
    dita, mas a participação na abundância do que você desfruta.
    Estas palavras, no entanto, podem ser aplicadas num sentido
    mais literal. Quanta gente não convida à sua mesa aqueles que
    podem, como eles dizem, honrá-los ou retribuir-lhes o convite por
    sua vez! Outras, ao contrário, encontram satisfação de receber seus
    parentes ou amigos que lhe sejam menos felizes. Ora, e quem não
    os têm entre os seus? Dessa forma presta-lhes um grande serviço,
    sem que pareça ajudá-los. Estes, que convidam os menos felizes,
    são os que trazem para si os cegos e os estropiados, praticando o
    ensinamento de Jesus, se fazem o convite por benevolência, sem
    ostentação, e sabem disfarçar o benefício por meio de uma sincera
    cordialidade.


  • INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS:
    A CARIDADE MATERIAL E A CARIDADE MORAL

    9. "Amemo-nos uns aos outros e façamos ao próximo o que
    quereríamos que eles nos fizessem." Toda religião, toda moral estão
    encerradas nestes dois princípios. Se fossem observados na Terra,
    todos vocês seriam perfeitos. Vocês não teriam aí mais o ódio, nem
    ressentimentos. Direi mais ainda: não haveria mais pobreza, porque
    do excesso da mesa dos abastados muitos pobres se alimentariam.
    E vocês não mais veriam, nos bairros sombrios que habitei durante
    a minha última encarnação, as pobres mulheres arrastando consigo
    miseráveis crianças necessitadas de tudo.
    Ricos! Pensem, um pouco que seja, em tudo isso! Ajudem os
    infelizes o mais que vocês possam. Dêem, para que Deus lhes
    retribua, um dia, o bem que vocês fizeram. Vocês terão, então,
    quando saírem do corpo físico, um cortejo de Espíritos reconhecidos
    a recebê-los no portal de um mundo mais feliz.
    Se vocês pudessem saber da alegria que eu provei ao encontrar
    no mundo espiritual aqueles a quem eu servi na minha última
    existência!
    Amem, pois, o seu próximo! Amem-no como a vocês
    mesmos, pois vocês já sabem, agora, que o infeliz que vocês
    repelirem, pode ser, talvez, um irmão, um pai, um amigo que
    afastam para longe de vocês. E qual não será o seu desespero ao
    reconhecê-lo no mundo espiritual!
    Quero que vocês compreendam bem o que é a caridade moral,
    que qualquer um pode praticar, porque não exige nenhum bem
    material e, no entanto, é a mais difícil de pôr em prática.
    A caridade moral consiste em vocês se suportarem uns aos
    outros, e isto é o que vocês menos fazem nesse mundo inferior
    onde vocês, por um momento, estão encarnados. Há um grande
    mérito, creiam-me, em saber calar para deixar falar um mais tolo
    que vocês. Isso é uma forma de caridade. Fazer-se de surdo quando
    uma palavra encarnecedora escapa de uma boca habituada a caçoar;
    não ver o sorriso de desdém com que vocês são recebidos por pessoas
    que, muitas vezes erradamente, se julgam superiores a vocês quando,
    em verdade, na vida espiritual, que é a única vida real, elas estão às
    vezes bem abaixo de vocês.
    Nessas atitudes vocês têm um mérito que não é o da
    humildade, mas o mérito da caridade, pois não observar os erros
    dos outros e nem com eles ressentir-se, essa é a caridade moral.
    Essa caridade, no entanto, não deve impedir que se pratique
    a caridade material. Pensem, acima de tudo, em não desprezar o seu
    semelhante. Lembrem-se de tudo o que lhes tenho dito: não se
    esqueçam jamais que, no pobre que vocês repelem, vocês talvez repilam
    um Espírito que lhes foi caro e que se encontra, momentaneamente,
    numa posição social inferior à sua.
    Reencontrei um dos pobres da Terra, a quem pude, por
    felicidade, ajudar algumas vezes. A ele, agora, tenho de implorar
    favores por minha vez, já que está acima de mim.
    Lembrem-se que Jesus disse que nós somos todos irmãos.
    Pensem sempre nisso, antes de vocês repelirem o leproso ou o
    mendigo.
    Adeus!
    Pensem naqueles que sofrem e orem! (Irmã Rosália, Paris,
    1860.)
    10. Meus amigos, tenho ouvido muitos dentre vocês dizerem:
    "Como posso fazer a caridade se, muitas vezes, eu nem para mim
    mesmo tenho o necessário?".
    A caridade, meus amigos, se faz de muitos modos. Vocês
    podem fazê-la por pensamentos, por palavras e por ações. Em
    pensamentos, será caridade orar pelos pobres abandonados, que
    morreram sem sequer ver a luz da existência, uma vez que uma
    prece de coração os aliviará.
    Em palavras, será caridade dar a seus companheiros de todos
    os dias alguns bons conselhos, dizendo aos homens amargurados
    pelo desespero e privações e que clamam contra Deus: "Eu era como
    vós! Sofria, era infeliz, mas acreditei no Espiritismo e, vede, agora
    sou feliz!".
    Aos velhos que lhes disserem: "É inútil! Eu estou no fim da
    vida. Vou morrer como vivi!", diga-lhes: "A Justiça Divina é a mesma
    para todos e para todas as idades. Lembrai-vos dos obreiros de última
    hora, de que Jesus falou".
    Às crianças que, já viciadas pelas má companhias, seguem
    por descaminhos sombrios, quase a cair em dolorosas tentações,
    diga-lhes: "Deus vos vê, meus queridos pequeninos", e não se canse
    de repetir-lhes sempre essas brandas palavras. Essas palavras
    terminarão por germinar no pensamento jovem e, de pequenos
    vagabundos, vocês farão homens de bem.
    Essas são formas de caridade moral.
    Muitos, entre vocês, dizem ainda: "Ora, somos incontáveis
    sobre a Terra. Deus não nos pode ver a todos". Escutem bem o
    seguinte, meus amigos: "Quando vocês sobem ao alto de um morro,
    o seu olhar não alcança os milhares de grãos de areia que cobrem
    esse morro? Muito bem! Deus vê vocês da mesma maneira. Ele lhes
    deixa usar o livre-arbítrio, como vocês deixam esses grãos de areia
    entregues ao vento que os dispersa".
    A diferença é que Deus, na sua infinita misericórdia, põe no
    fundo de seus corações uma sentinela vigilante que se chama
    consciência. Escutem-na! Dela vocês ouvirão bons conselhos! Por
    vezes, vocês a anestesiam, opondo-lhe o espírito do mal e ela se
    cala! Mas fiquem seguros de que a pobre abandonada despertará e
    se fará ouvida, quando a sombra do remorso deitar-se em seus
    corações.
    Escutem-na, interroguem-na, e vocês freqüentemente serão
    consolados pelos conselhos que dela vocês receberem.
    Meus amigos, a cada novo grupo de obreiros, o Senhor entrega
    uma bandeira. Para essa bandeira que lhes é entregue, eu lhes dou
    esta máxima do Cristo: "Amai-vos uns aos outros".
    Vivam esse princípio do amor!
    Reúnam-se todos sob essa bandeira e dela vocês receberão a
    felicidade e a consolação. (Um Espírito Protetor, Lyon, 1860.)


  • A BENEFICÊNCIA
    11. A beneficência, meus amigos, vos dará neste mundo os
    mais puros e os mais doces contentamentos, as alegrias do coração
    que não são perturbadas nem pelo remorso, nem pela indiferença.
    Oh! Se pudésseis compreender tudo o que encerra, de grande
    e de agradável, a generosidade das belas almas! É um sentimento
    que faz que se olhe para os outros com o mesmo olhar generoso
    que deita sobre si mesmo, que faz que se dispa com alegria para
    vestir o seu irmão mais pobre.
    Se pudésseis, meus amigos, ter apenas a doce ocupação de
    fazer os outros felizes! Quais são as festas do mundo que vós podereis
    comparar com essas festividades feitas de júbilos quando, como
    representantes da Misericórdia Divina, levais a alegria a essas pobres
    famílias que só conhecem da vida as adversidades e os amargores;
    quando vedes esses rostos marcados de dores brilharem sob a luz da
    esperança. É que, desprovidos de pão, esses infelizes e suas pequenas
    crianças, ignorando que viver é sofrer, gritavam, choravam e repetiam
    estas palavras que, como um fino punhal, penetravam no coração
    materno: "Eu tenho fome!".
    Oh! Compreendei quão deliciosa é a sensação daquele que vê
    renascer a alegria onde, um momento antes, só havia desespero!
    Compreendei quais são as obrigações que tendes para com os vossos
    irmãos sofredores!
    Ide, ide ao encontro dos infortunados! Ide ao socorro das
    misérias ocultas, que são as mais dolorosas! Ide, meus bem-amados,
    e lembrai-vos destas palavras do Salvador: "Quando vestires a um
    destes pequeninos, lembrai-vos que é a mim que vestis!".
    Caridade, palavra sublime que resume todas as virtudes, és tu
    que deves conduzir todos os povos à felicidade. Em te praticando,
    eles criarão para si infinitas alegrias celestiais para o seu próprio futuro
    e, enquanto estiverem exilados na Terra, tu serás para eles a consolação
    da alegria que viverão, mais tarde, quando se encontrarem reunidos
    no seio do Deus de amor.
    Foste tu, caridade, virtude divina, que eu procurei para os
    momentos de felicidade que gozei sobre a Terra. Possam os meus
    irmãos encarnados crer na voz do amigo que lhes fala e lhes diz: "É
    na caridade que vós deveis buscar a paz do coração, o contentamento
    da alma, o remédio contra as aflições da vida".
    Oh! Quando estiverdes a ponto de acusar Deus pelas vossas
    aflições, lançai um olhar para baixo de vós e vereis quanto de miséria
    a aliviar; quantas pobres crianças sem família; quantos velhinhos
    sem qualquer mão amiga que os ampare e que lhes feche os olhos
    ao serem chamados pela morte!
    Quanto bem a fazer!
    Oh! Não vos queixeis mais; antes agradecei a Deus e distribuí, às
    mãos cheias, a vossa simpatia, o vosso amor, o vosso dinheiro a todos
    os que, deserdados dos bens deste mundo, definham no sofrimento e
    na solidão.
    Fazei isso e colherei nesse mundo as alegrias bem doces e...
    mais tarde, somente Deus o sabe!... (Adolfo, Bispo de Alger,
    Bordéus, 1861.)
    12. Sede bons e caridosos, esta é a chave dos céus que tendes
    em vossas mãos. Toda a felicidade eterna se encerra nesta máxima:
    "Amai-vos uns aos outros".
    A alma não pode elevar-se aos planos espirituais a não ser
    pelo devotamento ao próximo. Ela não encontra felicidade e
    consolação a não ser nos atos de caridade.
    Sede, pois, bons, amparando a vossos irmãos, deixando de
    lado a terrível chaga do egoísmo. Cumprindo este dever, vereis abrirse
    o caminho da felicidade eterna para vós. Além disso, qual dentre
    vós não sentiu o coração palpitar, a vossa alegria interior crescer
    diante da narrativa de um belo ato de devotamento, de uma obra
    de comovente caridade? Se buscásseis unicamente o grande prazer
    que proporciona uma boa ação, estaríeis sempre na linha de vossa
    evolução espiritual. Os exemplos não vos faltam! O que falta é a
    boa vontade, que é tão rara! Vede a multidão de homens de bem,
    de quem a vossa história guarda piedosa lembrança e fazei o mesmo
    que eles.
    O Cristo não vos disse tudo o que é necessário sobre as
    virtudes da caridade e do amor? Por que deixar de lado os seus
    divinos ensinamentos? Por que não ouvir as suas divinas palavras e
    não abrir o coração a todos os seus doces preceitos de vida? Eu
    desejaria que tivésseis mais interesse e mais fé pelas leituras dos
    Evangelhos. Abandona-se, porém, esse livro, alegando ser de
    princípios inaplicáveis na vida e de difícil leitura, deixando no
    esquecimento esse admirável manual de vida. Vossos males provêm
    do abandono voluntário que fazeis desse resumo das Leis Divinas.
    Empenhai-vos em ler essas páginas ardentes do devotamento de
    Jesus à redenção dos homens, e meditai-as.
    Homens de ânimo e coragem, preparai-vos! Homens de
    pouco vigor, fazei da vossa brandura, da vossa fé, a coragem de que
    necessitais. Tende, todos, mais convicção e mais perseverança na
    propagação de vossa nova Doutrina. Este é apenas um encorajamento
    que viemos vos dar.
    É para estimular vosso zelo e as vossas virtudes que Deus nos
    permite manifestar-nos junto de vós. Mas, se cada um quisesse,
    bastaria a ajuda de Deus e de sua própria vontade para que tivesse
    coragem, porque as manifestações Espíritas se fazem somente para
    os que têm os olhos fechados e os corações indóceis.
    A caridade é a virtude fundamental que deve sustentar toda a
    edificação das demais virtudes terrenas. Sem a caridade não existem
    as outras virtudes. Sem a caridade não há que se esperar um futuro
    melhor, pois que não haverá um sentimento moral que nos oriente.
    Sem a caridade não há fé, pois a fé não é mais que a luz que torna
    radiosa uma alma caridosa.
    A caridade é a âncora eterna da salvação em todos os mundos.
    Ela é a mais pura emanação do próprio Criador. É a própria virtude
    de Deus, dada por Ele para a criatura. Como, pois, deixar no
    esquecimento esta suprema bondade divina? Qual seria, com este
    pensamento, o coração bastante perverso que sufocaria em si e
    expulsaria esse sentimento tão divino? Qual seria o filho bastante
    mau para se revoltar contra esta doce carícia: a caridade?
    Não me atrevo a falar do que fiz, porque os Espíritos também
    têm um sentimento de mal-estar por ferir alguém com as obras
    que fazem. Porém, as obras que iniciei na Terra, creio serem uma
    das que mais devem contribuir para o alívio de vossos semelhantes.
    Vejo outros Espíritos, freqüentemente, pedirem a missão de
    continuar a minha tarefa. Vejo-vos, minhas doces e queridas irmãs,
    no piedoso e divino ministério. Vejo-vos praticando a virtude que
    vos recomendei, com toda a alegria que nasce dessa existência de
    dedicação e de sacrifícios. Essa é, para mim, uma grande felicidade:
    de ver quanto se enobrecem as vossas almas, quanto essa missão é
    estimada e docemente protegida.
    Homens de bem! Homens de boa e firme vontade, uni-vos
    para continuar a grande obra de propagação da caridade. Encontrareis
    a vossa recompensa dessa obra, no próprio exercício desse gênero
    de caridade. Não há alegria espiritual que a caridade não vos dê
    nesta mesma existência. Sede unidos! Amai-vos uns aos outros,
    segundo os princípios do Cristo. Assim seja. (Vicente de Paulo,
    Paris, 1858.)
    13. Chamo-me Caridade. Eu sou o caminho principal que
    conduz a Deus. Segui-me, porque eu sou a meta que todos vós
    deveis alcançar.
    Fiz, esta manhã, minha ronda habitual e, de coração
    amargurado, venho vos dizer: "Oh! meus amigos, quantas misérias
    e quantas lágrimas, e quanto vós haveis de fazer para enxugá-las
    todas!". Em vão procurei consolar pobres mães, dizendo-lhes ao
    coração: "Coragem! Há almas bondosas que velam por vós; não sereis
    abandonadas. Paciência! Deus existe e vós sois as suas amadas, vós sois
    as suas eleitas!".
    Elas pareciam entender-me e voltavam os seus olhos
    espantados para o meu lado. Eu li em seus pobres rostos que os
    seus corpos, esses tiranos do espírito, tinham fome e que, se as
    minhas palavras lhes asserenavam um pouco o coração, não lhes
    atendiam o estômago faminto. Então, eu lhes repetia: "Coragem!".
    E uma pobre mãe, muito jovem ainda, que amamentava uma
    criancinha, tomou-a nos seus braços e a ergueu na direção do Alto,
    como a pedir-me que protegesse aquele pequenino ser, que não
    encontrava no seio estéril mais que uma alimentação insuficiente
    para as suas necessidades de vida.
    Noutros lugares, meus amigos, eu vi pobres velhos sem
    trabalho e sem abrigo, atormentados por todos os sofrimentos de
    quem não tem recursos e envergonhados de sua miséria. Não
    desejavam, eles que jamais mendigaram, estender as mãos e implorar
    pela piedade dos que passavam por eles. Com o meu coração
    comovido de compaixão, eu que sou a caridade e nada tenho, me
    fiz de pedinte no lugar deles e vou por todas as partes estimular a
    beneficência, soprando esses bons pensamentos nos corações
    generosos e compassivos.
    Eis porque venho a vós, meus amigos, e vos digo: "Há por
    toda parte os infelizes sem pão na mesa, os fogões sem chama, e a
    cama sem cobertores". Eu que sou a caridade, não vos digo o que
    deveis fazer. Deixo a iniciativa a vossos bons corações. Se eu vos
    ditasse um programa de atividades nobres, não mais tereis o mérito
    de vossa boa ação. Digo-vos somente: "Eu sou a caridade e estendo
    as vossas mãos para os vossos irmãos sofredores".
    Mas, se peço, eu também dou. E dou muito. Convido-vos
    para um grande banquete e vos forneço a árvore onde vós todos vos
    saciareis! Vede como é bela, como está carregada de flores e frutos!
    Ide, ide, colhei, apanhai todos os frutos dessa bela árvore que se
    chama beneficência! Em lugar dos ramos que lhe arrancardes,
    pendurarei todas as boas ações que fizerdes e levarei esta árvore para
    Deus, para que Ele a carregue novamente, porque a beneficência
    não se esgota jamais.
    Segui-me, pois, meus amigos, a fim de que eu vos conte
    entre aqueles que se ajustam sob a minha bandeira. Segui-me sem
    receio: eu vos conduzirei no caminho da salvação, porque eu sou a
    Caridade. (Cáritas, martirizada em Roma, Lyon, 1861.)
    14. Há muitas maneiras de fazer a caridade, que muitos dentre
    vós confundem com a esmola. No entanto, entre a caridade e a
    esmola há uma grande diferença.
    A esmola, meus amigos, algumas vezes é útil e necessária,
    porque dá alívio aos pobres. Mas quase sempre é humilhante, tanto
    para aquele que dá, quanto para aquele que a recebe.
    A caridade, ao contrário, une o benfeitor ao beneficiado e,
    além disso, se disfarça de muitas maneiras! Pode-se ser caridoso
    mesmo com os parentes e com seus amigos, sendo indulgentes uns
    para com os outros, perdoando-se mutuamente pelas suas fraquezas
    e cuidando de não ferir o amor-próprio das pessoas.
    Vós, Espíritas, podeis ser caridosos na vossa maneira de agir
    com os que não pensam como vós, induzindo os menos esclarecidos
    a crer, sem os chocar, sem atirar-se contra a convicção deles. Mas os
    atraindo amavelmente às nossas reuniões, onde eles poderão nos
    ouvir. Saberemos descobrir a entrada dos corações deles para ali
    penetrarmos. Eis uma forma de caridade.
    Escutai agora o que é a caridade para com os pobres, esses
    deserdados do mundo, mas recompensados por Deus quando sabem
    aceitar as misérias sem queixas e murmurações e isso depende de
    vós, como vos farei compreender por um exemplo.
    Vejo, várias vezes na semana, uma reunião de senhoras de
    todas as idades. Para nós, vós sabeis, elas são todas nossas irmãs.
    Que fazem? Elas trabalham rápido, bem rápido. Seus dedos são
    ágeis.
    Vejo, também, como as fisionomias delas são risonhas e como
    os seus corações palpitam unidos! Mas para que finalidade
    trabalham assim ágeis, alegres, unidas? É que elas vêem aproximarse
    os tempos que serão rudes para as famílias pobres. Essas famílias
    não puderam juntar provisões para as crises de mais penúria e seus
    utensílios já se perderam. As pobres mães já se inquietam e choram,
    pensando nos filhinhos que, certamente, sentirão abandono e fome!
    Mas, paciência, pobres mães! Deus inspirou estas senhoras
    menos infelizes que vós! Elas estão reunidas e juntam o necessário
    para ajudar-vos. Depois, num destes dias, quando a penúria vos
    cobrir e murmurardes dizendo: "Deus não é justo!", já que isso
    dizeis em vossos dias de sofrimento, - vereis surgir a filha de uma
    dessas obreiras da caridade. Sim, é para vós que elas trabalham e,
    assim, as vossas queixas se transformação em bênção, porque, nos
    corações dos infelizes, o amor acompanha bem de perto o ódio.
    Como todas essas obreiras necessitam de apoio, vejo as
    mensagens dos bons Espíritos chegarem de todas as partes. Os
    homens, que fazem parte desse agrupamento, trazem-lhes a sua
    colaboração. Fazem dessas leituras que agradam tanto, enquanto
    elas trabalham. E nós, para recompensar-lhes a dedicação às tarefas
    de todas e de cada uma em particular, prometemos a essas dedicadas
    obreiras uma boa clientela que lhes pagará à vista com as moedas
    das bênçãos, única moeda que circula no céu. Asseguramo-lhes,
    ainda, sem medo de errar, que as bênçãos sagradas não lhes faltarão.
    (Cáritas, Lyon, 1861.)
    15. Meus queridos amigos, cada dia ouço, entre vós, alguns
    dizerem: "Eu sou pobre; não posso fazer a caridade". E cada dia
    vejo que faltais com a indulgência com os semelhantes. Não perdoais
    coisa alguma que vos façam e vos mostrais juízes muitos severos,
    sem vos perguntar se ficaríeis satisfeitos que os outros vos fizessem
    o mesmo.
    A indulgência não é também caridade?
    Vós que não podeis fazer mais que caridade-indulgência, fazei
    pelo menos essa, mas fazei-a com grandeza.
    No que se refere à caridade material, vou contar-vos uma
    história extraordinária.
    Dois homens acabavam de morrer. Deus havia dito:
    "Enquanto esses dois homens viverem, coloquem, em dois sacos
    diferentes cada uma de suas boas ações e, quando morrerem, esses
    dois sacos serão pesados". Quando, pois, esses dois homens chegaram
    à sua última hora, Deus mandou que lhe trouxessem os dois sacos
    de boas ações de cada um. Um dos sacos estava repleto, grande,
    volumoso, e as moedas que estavam dentro dele tilintavam. O outro
    saco era tão pequeno, tão vazio, que se podia ver as poucas moedas
    que continha.
    Um dos homens, de pronto, reconheceu o que lhe pertencia:
    - Este é meu! - disse de imediato. - Eu o reconheço, uma
    vez que fui rico e doei muito dinheiro!
    - Aquele menor é meu! - disse o outro homem. - Fui sempre
    pobre e quase nada tinha para repartir com os outros.
    Mas, ó surpresa! Os dois sacos foram colocados na balança e
    o maior tornou-se leve e o pequeno se fez mais pesado, tão pesado
    que fez o outro prato da balança levantar-se muito!
    Então, disse Deus ao rico: "Tu doaste muito, é verdade, mas
    doaste por ostentação e para fazer o teu nome figurar em todos os
    templos do orgulho. Além disso, para fazer as tuas doações, não te
    privaste de nada. Passa, pois, à minha esquerda e fica satisfeito que
    as tuas esmolas sejam contadas a teu favor, embora como qualquer
    coisa sem muito valor".
    Depois, Deus disse ao pobre: "Deste bem pouca coisa a teu
    semelhante, meu amigo. Mas cada uma das poucas moedas que
    estão, nesta balança representam uma privação para ti. Se não deste
    muitas esmolas, tu fizeste a caridade e isso é que vale mais. Tu fizeste
    a caridade de modo natural, sem cuidar de que ela fosse contada a
    teu favor. Foste indulgente; não julgaste o teu semelhante e, ao
    contrário, desculpaste todas as más ações que te fizeram. Passa, pois,
    à minha direita e vai receber a tua recompensa". (Um Espírito
    Protetor, Lyon, 1861.)
    16. A mulher mais abastada, feliz, que não precisa empregar
    o seu tempo no trabalho de sua casa, não poderia consagrar algumas
    horas de seu dia a trabalhos úteis para o seu semelhante? Que,
    com o que lhe sobre de sua abundância, compre roupas para vestir
    os infelizes. Que faça, com suas mãos delicadas, agasalhos aos que
    têm frio. Que ajude a gestante pobre a cobrir o filho que vai nascer.
    Se, ao fazer isso, os seus filhos tiverem um pouco menos de
    supérfluo, os filhos dos pobres terão um pouco do que lhes falta.
    Trabalhar para os pobres, é trabalhar na vinha do Senhor.
    E tu, pobre trabalhadora, que não dispões de sobras na tua
    bolsa, mas que queres, por amor a teus irmãos menos felizes, dar
    um pouco do que possuis, dá algumas horas de teu dia, do teu
    tempo que é a tua riqueza. Faze algumas dessas coisas bonitas que
    encantam os de mais recursos financeiros. Vende o produto desse
    teu trabalho e poderás, também, distribuir a teus irmãos a tua parte
    de auxílio. Terás, talvez, algumas coisas a menos, mas darás calçados
    a um que anda com os pés no chão.
    E vós, mulheres dedicadas a Deus, trabalhai também para a
    sua obra. Mas que vossos trabalhos delicados e caros não sejam tãosomente
    para adornar as capelas ou para atrair a atenção sobre a
    vossa habilidade manual e paciência em fazê-los. Trabalhai, minhas
    filhas, e que os valores obtidos com as vossas obras sejam consagrados
    ao alívio de vossos irmãos em Deus.
    Os pobres são os filhos bem-amados do Pai Celestial.
    Trabalhar por eles é glorificar o Criador. Sede, portanto, os braços
    da Providência Divina, que diz: "Às aves do céu, Deus dá alimentos".
    Que o ouro e a prata, que são tecidos pelos vossos dedos, se
    transformem em roupas e alimentos para aqueles que não os têm.
    Fazei isso e o vosso trabalho será abençoado.
    E todos vós que podeis produzir alguma coisa, dai do que
    fizerdes. Dai o vosso gênio, doai de vossas inspirações, doai de vossos
    corações e Deus vos abençoará. Poetas, literatos, que sois lidos pelas
    pessoas mais cultas, satisfazei-lhes os lazeres, mas que com o
    resultado de algumas de vossas criações, sejam aliviados os infelizes!
    Pintores, escultores, artistas, que a vossa inteligência e a vossa arte
    venham, também, em auxílio a vossos irmãos. Não tereis menos
    glórias com isso, mas esses infelizes terão alguns sofrimentos a
    menos.
    Todos vós podeis doar. A qualquer classe a que pertençais,
    vós dispondes de alguma coisa que podeis dividir. Seja o que for
    que Deus vos haja dado, deveis uma parte aos que não têm o
    necessário, porquanto, se estivésseis na mesma posição em que se
    encontram os infelizes, ficaríeis muito contentes se alguém dividisse
    alguma coisa convosco. As vossas riquezas na Terra serão um pouco
    menores, mas as vossas riquezas no céu serão mais abundantes.
    Colhereis o cêntuplo do que houverdes semeado em benefício nesse
    mundo. (João, Bordéus, 1861.)


  • A PIEDADE
    17. A piedade é a virtude que mais vos aproxima dos Espíritos
    Puros. É a irmã da caridade que vos conduz a Deus.
    Deixai o vosso coração enternecer-se diante dos quadros da
    miséria e do sofrimento de vossos semelhantes. Vossas lágrimas são
    um bálsamo que derramais sobre as suas chagas. E quando, por
    uma branda simpatia, chegais a devolver-lhes a esperança e a
    resignação, que ventura experimentais! Essa ventura que sentis, é
    verdade, tem um certo amargor, porque ela nasce ao lado da desgraça
    dos outros. Mas, se não tem o sabor dos prazeres mundanos, ela
    não traz as dolorosas desilusões do vazio que os prazeres mundanos
    deixam após a sua passagem. Essa ventura diante da dor tem uma
    suavidade penetrante que encanta a alma.
    A piedade, uma piedade bem sentida, essa é o amor. O amor
    é devotamento. O devotamento é esquecimento de si mesmo. Esse
    esquecimento de si mesmo é abnegação em favor dos infelizes e
    esta é a virtude por excelência. É a mesma virtude praticada em
    toda a sua vida pelo Divino Messias e que Ele ensinou na sua
    doutrina tão santa e tão sublime.
    Quando a doutrina de Jesus for restabelecida em sua pureza
    primitiva, quando for aceita por todos os povos, ela trará a felicidade
    à Terra, fazendo reinar, enfim, a concórdia, a paz e o amor.
    O sentimento mais apropriado para vos fazer evoluir,
    domando o vosso egoísmo e o vosso orgulho; o sentimento que
    levará a vossa alma à humildade, à beneficência e ao amor a vosso
    próximo - esse sentimento é a piedade! Essa piedade que vos comove
    até o mais íntimo do ser, diante dos sofrimentos de vossos irmãos,
    que vos faz estender-lhes uma mão para socorrê-los e vos arranca
    lágrimas de simpatia.
    Jamais sufoqueis nos vossos corações esta emoção celestial.
    Não façais como esses egoístas endurecidos que se afastam
    dos aflitos, querendo com isso que a visão da miséria não lhes
    perturbe, por um só momento, a sua feliz existência. Temei, antes,
    ficar indiferentes quando podeis ser úteis. A tranqüilidade comprada
    ao preço da indiferença culposa, é a tranqüilidade do mar Morto,
    que oculta no fundo de suas águas a lama fétida e a putrefação.
    Quanto a piedade está longe de causar a perturbação e o
    aborrecimento que teme o egoísta! Sem dúvida que a vossa alma
    experimenta, no contato com a desgraça dos outros e ao senti-la
    em vós mesmos, um estremecimento natural e profundo, que fará
    vibrar todo o vosso ser e vos envolverá penosamente. Mas, a
    compensação é grande, quando vós conseguirdes devolver a coragem
    e a esperança a um irmão infeliz. Ele se comoverá com o aperto de
    uma mão amiga e seu olhar úmido, às vezes, de emoção e
    reconhecimento, se voltará docemente para vós, antes de elevar-se
    ao céu para agradecer por lhe haver enviado um consolador, um
    amparo misericordioso.
    A piedade é a melancólica mas celeste precursora da caridade,
    a primeira entre as virtudes de que ela é irmã e cujos benefícios ela
    prepara e enobrece. (Miguel, Bordéus, 1862.)


  • OS ÓRFÃOS
    18. Meus irmãos, amem os órfãos! Se vocês soubessem quanto
    é triste estar só e abandonado, sobretudo na infância!
    Deus permite que haja órfãos, para nos estimular a servirlhes
    de pais. Que divina caridade, a de ajudar a uma pobre criaturinha
    abandonada, de evitar que ela sofra fome e frio e de orientar-lhe a
    alma, a fim de que não se perca nos vícios!
    Quem estende a mão à criança abandonada é agradável a Deus,
    porque compreende e pratica a sua lei de fraternidade. Reflitam,
    também, que, muitas vezes, a criança que vocês amparam agora já
    lhes foi cara numa encarnação anterior. Se vocês pudessem recordar
    as vidas passadas, o amparo que hoje vocês oferecem a essa criança,
    não seria mais um ato de caridade, mas o cumprimento de um dever.
    Assim, pois, meus amigos, todo sofredor é seu irmão e tem
    direito à sua caridade. Não a essa caridade que fere o coração, não a
    essa esmola que queima a mão daquele que a recebe, já que os óbolos
    que vocês distribuem são freqüentemente muito amargos! Quantas
    vezes eles seriam recusados se, no casebre, a enfermidade e a privação
    não os estivessem esperando!
    Doem com delicadeza, juntando ao benefício que vocês
    fizerem, o mais precioso de todos os benefícios: uma palavra de
    carinho, um sorriso amigo. Evitem esse ar de proteção, que revolve
    a lâmina num coração que já está sangrando e pensem que, fazendo
    o bem, vocês trabalham para si mesmos e pelos seus irmãos. (Um
    espírito familiar, Paris, 1860.)


  • BENEFÍCIOS PAGOS COM INGRATIDÃO
    19. Que pensar das pessoas que, recebendo a ingratidão em
    troca dos benefícios prestados, não mais querem fazer o bem, com
    medo de reencontrar ingratos?
    Estas pessoas têm mais egoísmo do que caridade. Fazem o
    bem somente para receber demonstrações de reconhecimento. Não
    estão fazendo o bem com desinteresse pessoal e, em verdade, somente
    o bem feito sem esperar gratidão do beneficiado é que é agradável a
    Deus.
    Há orgulho nos que fazem o bem esperando gratidão, porque
    eles se comprazem com a humilhação do beneficiado que lhes venha
    depor aos pés o seu reconhecimento. Aquele que busca sobre a Terra
    a recompensa pelo bem que faz, não a receberá no Céu. Mas Deus
    reservará recompensa para aqueles que não a buscam na Terra.
    É necessário sempre ajudar os fracos, mesmo sabendo que
    aquele a quem você faz o bem não lhe virá agradecer. Fique certo
    que, se aquele a quem você prestou serviços esquecer o benefício,
    Deus valorizará ainda mais a sua ação, do que se você recebesse o
    reconhecimento do beneficiado. Deus permite, às vezes, que você
    seja pago com a ingratidão, para provar a sua perseverança em fazer o
    bem desinteressadamente.
    Como sabe você que esse benefício, esquecido por um
    momento, não lhe produzirá mais tarde bons frutos? Fique certo,
    ao contrário, de que essa é uma semente que germinará com o
    tempo.
    Infelizmente, você não vê além do momento presente. Você
    trabalha por você e não tem em vista o seu próximo. Os benefícios
    prestados resultam no abrandamento dos corações mais endurecidos.
    Tais benefícios poderão ficar esquecidos na Terra, mas quando
    o Espírito daquele que foi beneficiado se desenfaixar da veste física,
    ele se lembrará da ingratidão diante de seus benfeitores e essa
    lembrança lhe doerá no coração. Ele lamentará, então, a própria
    ingratidão. Quererá repará-la, como quem repara uma falta grave.
    Pagará a sua dívida de gratidão numa futura reencarnação, aceitando
    mesmo uma vida de dedicação ao seu benfeitor.
    É assim que, sem você suspeitar, estará contribuindo para a
    evolução moral daquele que hoje se revela ingrato. Você reconhecerá,
    mais tarde, toda a verdade desta máxima: "Um benefício jamais se
    perde". Mas, até lá, você terá trabalhado para o seu benefício pessoal,
    uma vez que terá o mérito de ter feito o bem com desinteresse, sem
    se deixar desencorajar pelas decepções.
    Ah, meu amigo, se você conhecesse todas as ligações que, na
    vida atual, o atam às suas vidas anteriores! Se você pudesse ter uma
    visão ampla da multiplicidade de relações que ligam uns aos outros
    todos os seres, para com progresso mútuo, você admiraria muito
    mais a sabedoria e a bondade do Criador, que lhe permite reviver
    com aqueles com quem você já viveu, a fim de você chegar até Ele.
    (Guia Protetor, Sens, 1862.)


  • BENEFICÊNCIA EXCLUSIVA
    20. A beneficência está sendo bem entendida, quando ela á
    praticada apenas entre as pessoas da mesma opinião, de uma mesma
    crença ou de um mesmo partido?
    Não! É sobretudo a esse espírito de seita e de partido que a
    beneficência vem abolir. Todos os homens são irmãos entre si. O
    verdadeiro cristão, portanto, vê irmãos entre si. O verdadeiro cristão,
    portanto, vê irmãos em todos os seus semelhantes. Para socorrer
    aquele que está em necessidade, ele não pergunta nem a sua crença,
    nem a sua opinião, seja qual for.
    Seguiria ele o preceito de Jesus Cristo, que diz para amar até
    mesmo os inimigos, se ele repelisse um infeliz tão-somente porque
    este tivesse uma fé religiosa diferente da sua? Que ampare, pois,
    sem pedir conta alguma das convicções do infeliz.
    Se aquele que sofre for um inimigo da religião, o amparo
    que se lhe dê será o meio de fazer com que a ame. Em o repelindo,
    sem prestar-lhe a beneficência, o cristão o faria odiar a religião que
    discrimina os seres. (Luís, Paris, 1860).